Notícias de Imprensa e Eventos

Deixar o mundo melhor - Entrevista a José Tolentino Mendonça

Sexta-feira, Maio 13, 2022 - 01:00
Publicação
Expresso

Nasceu no Machico, na Madeira, mas passou parte da infância em Angola... Quando tinha um ano, os meus pais emigraram para o Lobito, em Angola, e ali vivi até aos 8 anos. Foi uma etapa muito importante, [foi ali] que me iniciei na experiência do mundo. Quem teve essa experiência em África sabe que África dá-nos a dimensão da vastidão. Recordo-me bem da paisagem, das amizades, de memórias familiares. No ano passado, tive a primeira oportunidade de voltar aos lugares da minha infância, e a pessoa que me acompanhou estava impressionada, porque consegui orientar-me na cidade. De Angola, trouxe o espanto, talvez todas as infâncias sejam um país do espanto...

Quando voltou a Angola, reencontrou amigos de infância?
Ainda encontrei familiares que lá ficaram e um colega de escola. Foi emocionante. Também reencontrei os lugares, um impacto muito grande. Nós, portugueses, ainda não contamos [bem] a história da nossa relação com África, ainda há muitos interditos. Acho que Portugal ainda não soube encontrar uma narrativa da qual possa ter orgulho e falar livremente do que foi o nosso encontro com África. Espero que a minha geração e a geração [seguinte], possam contar a nossa própria história de uma forma mais descomplexada. O que resta da presença dos portugueses em cidades como Benguela ou o Lobito são coisas marcantes, sobre as quais vale a pena ter uma reflexão que não existe. Ainda há feridas da Guerra Colonial, e de um passado colonial que não está metabolizado. Seria importante passar para outra fase. Há tanto para fazer na relação de amizade entre Portugal e os países lusófonos, os vínculos que nos unem são tão fortes, que seria uma pena ficarem silenciados ou clandestinos ao longo de gerações (...)

Nota: ‘Deixar o Mundo Melhor’ pode ser ouvido, na íntegra, no site do Expresso e em qualquer plataforma de podcasts. Também pode ler uma versão sintética desta conversa na revista do Expresso de 13 de maio, aqui.