Fonte: Diário do Minho. Autor: Luís M. Figueiredo Rodrigues
Há um equívoco semântico que, de tão repetido, se tornou uma cegueira ontológica. Habituámo-nos a chamar “redes sociais” às plataformas digitais – Facebook, Instagram, TikTok – como se a socialidade fosse uma invenção do Vale do Silício. É urgente, por higiene intelectual e sobrevivência antropológica, denunciar esta apropriação indevida. As verdadeiras redes sociais, as “clássicas”, são anteriores à eletricidade: são a família, a mesa do café, a associação de trabalhadores, a paróquia, a equipa desportiva, a vizinhança. Estas são as redes que sustentam a vida; as outras, as que nos consomem nos ecrãs, são, com rigorosa propriedade, “redes sócio-digitais”. E a diferença entre ambas não é de grau, é de natureza.
Nas redes sociais clássicas, a unidade de medida é a presença. A interação é mediada pela presença dos corpos, pela vulnerabilidade do rosto e pela imprevisibilidade do encontro. Nelas, o tempo não é algorítmico, mas humano; o silêncio não é uma falha de conexão, mas uma condição de escuta. Pelo contrário, nas redes sócio-digitais, a unidade de medida é a atenção capturada. Não somos cidadãos nem sequer utilizadores; somos a matéria-prima de uma arquitetura extrativista desenhada para fragmentar a cognição e mercantilizar a intimidade. O que ali ocorre não é comunidade, é conectividade; não é diálogo, é, muitas vezes, monólogo partilhado em câmaras de eco.
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